É sempre a sensação com que fico quando estes dois dias acabam, depois de o mês inteiro a ansiarmos por eles. Passa demasiado depressa, com demasiado stress. Este ano praticamente não desfrutei do Natal. Entre cozinhar, pôr a mesa, fazer telefonemas, responder a mensagens, organizar embrulhos e transportar comida entre a cozinha e a sala sobrou-me pouco tempo para conversar, para rir, para apreciar a árvore cheia de cores. Abrimos os presentes meio a correr, um pouco antes da meia noite, numa confusão de papel amarrotado, porque outros compromissos assim o obrigavam. Na Consoada, sobrou apenas uma pilha de papel rasgado e o cheiro a velas perfumadas misturado com bacalhau. No dia de Natal repetiu-se a dose do pôr a mesa, do equilibrar-me em cima dos saltos altos, do respirar fundo e mediar conflitos estilo guerra fria na mesma mesa, de comer demasiado e de haver demasiada loiça. Depois sair de casa, nova troca de presentes, sorrisos, finalmente consegui parar. E pensar que o Natal estava aí mas que estava a acabar. De pensar que é um pouco parva esta festa que celebra um nascimento, desta festa religiosa que deixou de ser religiosa. De pensar que antes ia à missa do Galo, e à missa do dia de Natal, e que a certa altura até isso deixou de fazer sentido. E que, quando fiquei mais velha e deixei de acreditar [tanto] em Deus, e desde que quando fiquei mais velha e deixei de ligar [demasiado] aos presentes, que trabalho até dia 23, talvez dia 24, novamente dia 26, muito do Natal se perdeu. E passou em fast forward e eu não o consegui travar.
Tive verdadeiro prazer a comprar presentes, porque o fiz com tempo. Escolhi com atenção cada um deles, comprei para pessoas que normalmente não costumo comprar, só porque sim. Foi a parte boa. Isso e os quilos de doces que comi.