domingo, 30 de Novembro de 2008
dificuldades
encontrar o presente de Natal certo. Detesto comprar por obrigação porque dou presentes por impulso.
hoje
contente sem razão. Talvez por duas noites bem dormidas, doze horas seguidas. Talvez por ter andado de pijama até às cinco da tarde, sem complexo de culpa. Talvez por um fim de tarde sossegado com as receitas do Olivier a teimar em interromper o sono, por uma noite de conversa e copos com as amigas de sempre, noivas ou comprometidas. Talvez porque amanhã não tenho de ir trabalhar e esta semana concretizo um objectivo profissional que, por simples que pareça, diz muita coisa. Talvez por estar sozinha em casa e poder fazer as coisas ao meu ritmo. Ou talvez me tenha cansado da minha constante melancolia. Seja como for, é bom sinal.
sábado, 29 de Novembro de 2008
Tóquio
e quando saio da espelunca rockeira do Cais do Sodré, em noite de renovar a carteira profissional, penso sempre porque é que não vou lá mais vezes
quinta-feira, 27 de Novembro de 2008
quero outro tipo de cansaço
Cansar o corpo ao ritmo de um concerto louco, encher a cabeça de música e a alma de adrenalina, cegar-me com as luzes com os fumos com os cheiros, intoxicar-me, levar encontrões sujar-me de cerveja, dançar de olhos fechados e com as mãos no ar cantar a pleno pulmões ter a impressão que cantam só para mim bater palmas até as mãos doerem saltar até as pernas não aguentarem
Cansar o corpo em mergulhos num mar revolto, rebolar na areia, ser croquete, atirar areia molhada aos outros, fazer desenhos e construções deixar a marca dos meus pés pequenos e morenos pegadas molhadas que desaparecem corpo cansado do sol e toalha húmida e cheia de areia, não me conseguir pentear, provar lábios cheios de sal e frescos de um banho recente fugir do calor para a sombra com um livro estragado de páginas encarquilhadas tirar fotografias arrastar-me praia fora em direcção a casa quando o sol se começa a pôr
Cansar o corpo a percorrer as ruas de uma cidade desconhecida porque o tempo para visitar é pouco, subir, descer, fazer quilómetros a pé, tirar fotografias atrás de fotografias e ler com atenção as explicações culturais entrar em lojas não comprar nada porque o dinheiro não chega comer em andamento olhar à volta comentar o que vejo, sentar-me no chão os pés já não se sentem mas arrastar-me ainda assim porque não está tudo visto e mesmo com o corpo exausto a cabeça está limpa e ainda tenho vontade de fechar a noite com cerveja
Cansar o corpo numa espécie de combate que se expressa em lambidelas nas bochechas e arremessos de saliva em todas as direcções, lutas ridículas aos olhos de quem está de fora, medir forças a ver quem ganha ser arrastada pelo chão porque não me quero levantar fazer um disparate qualquer e fugir à volta da mesa esconder atrás de um móvel deixar-me apanhar porque perdi as forças com um ataque de riso sucumbir às cócegas que não se aguentam para depois pedir tréguas e deixar cair o corpo cansado num abraço que me segura
Cansar o corpo. De qualquer forma, menos desta. Corpo cansado de compromissos onde é sempre essencial estar, onde tenho de ser simpática e fazer perguntas inteligentes, mesmo que sejam oito da manhã e eu tenha dormido só quatro horas, cansar o corpo com esta posição em que me sento, e os dedos sempre doridos pelos caracteres que é preciso alinhar
quarta-feira, 26 de Novembro de 2008
segunda-feira, 24 de Novembro de 2008
Estranha Manifestação de amor [nove]
Tinha força: tinha mulher, tinha filhas, o projecto de escrever, coisas concretas, bóias de me aguentar a superficie. Se a ansiedade me picava um nada, a noite, sabes como e, ia ao quarto das miúdas, aquela desordem de tralha infantil, via-as a dormir, serenava: sentia-me escorado, ha, escorado e a salvo. E de repente, caralho, voltou-se-me a vida do avesso, eis-me barata de costas a espernear, sem apoios. A gente, entendes, quero dizer eu e ela, gostava muito um do outro, continua a gostar muito um do outro e os tomates desta merda e eu não conseguir por-me outra vez direito, telefonar-lhe e dizer – Vamos lutar, porque se calhar perdi a gana de lutar, os braços não se movem, a voz não fala, os tendões do pescoço não seguram a cabeça. E foda-se, é só isso que eu quero. Acho que nos os dois temos falhado por não saber perdoar, por não saber ser completamente aceite, e entrementes, no ferir e no ser ferido, o nosso amor (e bom falar assim: o nosso amor) resiste e cresce sem que nenhum sopro até hoje o apague. E como se eu só pudesse amá-la longe dela com tanta vontade, catano, de a amar de perto, corpo a corpo, conforme desde que nos conhecemos o nosso combate tem sido, dar-lhe o que até hoje lhe não soube dar e há em mim, congelado embora mas respirando sempre, sementinha escondida que aguarda. O que a partir do início lhe quis dar, lhe quero dar, a ternura, percebes, sem egoísmo, o quotidiano sem rotina, a entrega absoluta de um viver em partilha, total, quente e simples como um pinto na mão, animal pequeno assustado e tremulo, nosso.
Memória de Elefante, António Lobo Antunes
domingo, 23 de Novembro de 2008
evidências [quatro]
A rapidez com que o fim de semana acaba é directamente proporcional ao tempo que a semana se arrasta.
sexta-feira, 21 de Novembro de 2008
Saramago by Meirelles
Um retrato frio e chocante da natureza humana, o filme de Fernando Meirelles baseado no Ensaio sobre a Cegueira, de josé saramago, é capaz de demonstrar o melhor e o pior das pessoas. Entre o nojo, a náusea, a pena e a raiva, viajamos por uma quantidade enorme de sentimentos diversos e saímos, estranhamente, com um sorriso, deopis de quase vomitarmos.
Os pormenores são dignos de realçar. nunca se sabe, em momento nenhum, o nome de ninguém. O destaque vai para o papel da mulher, inicialmente dependente, para depois haver uma total inversão do peso que a personagem de Julianne Moore tem na relação com o marido. De dependente passa a quem todos dependem. Como voltar a ser dependente depois? Como voltar a lidar com as rotinas, com o mundo, transformado?
não se sabe a razão da cegueira geral. Ciência, castigo divino, ou caos, fica ao critério de quem vê.
Depois de ter visto o filme, vou ler o livro. Ultrapassando uma quase visceral aversão a Saramago.
quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
e porque falámos disto hoje
não é um podcast, mas é o que estaria na minha mixtape...
1. This Modern Love - Bloc Party
2. Because I Want You - Placebo
3. Fake Empire - The National
4. Yellow Brick Road - Arctic Monkeys
5. The Magic Position - Patrick Wolf
6. Kiss Me - David Fonseca
7. When Anger Shows - Editors
8. Love will tear us appart - Joy Division
9. Lullaby - The Cure
10. Electric Dreams - Human League
segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
sexta-feira, 14 de Novembro de 2008
terça-feira, 11 de Novembro de 2008
ser previsível
Por às vezes dizer disparates no pasquim, sobretudo em dia de fecho e quando há nacionalizações à mistura, hoje ia protestar com qualquer coisa e diz-me, calmamente, o L.: Já sei. Não queres mais brincar a este jogo não é?
Sem comentários.
segunda-feira, 10 de Novembro de 2008
De visita ao festival de BD da Amadora, pareceu-me ter entrado na Twilight Zone. Muitos adolescentes vestidos de personagens japonesas, que depois me disseram que era Naruto, Star Wars e até Final Fantasy VII. O caos de cor e acessórios.
Gostei dos desenhos dedicados a músicos, que não me importava de ter em casa. E satisfiz o vício de Maitena, a BD mais gaja que conheço, e que me fez rir com o caricato de situações onde me revejo.
sábado, 8 de Novembro de 2008
quarta-feira, 5 de Novembro de 2008
terça-feira, 4 de Novembro de 2008
A Nicola tem novos pacotes de açúcar. São bocados das vidas das pessoas. Desejos rascunhados. E eu sou pirosa e procuro os que gosto no café do Chiado onde vou todos os dias. Remexo-os com cuidado à procura de novos dias. A ver se o meu "um dia" é parecido com o "um dia" de alguém. Ou se alguém verbalizou o que pensei e ainda não tinha posto por palavras. A AB ajuda-me sempre, tão ou mais pirosa que eu. Levei três para casa. O primeiro que gostei de todos, o mais bonito, um dia beijo-te a meio de uma frase, trouxe-o para casa. Guardei o segundo, com cuidado, no jornal, para me lembrar em dias menos bons. E ofereci com meia vergonha o terceiro.
segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Direitos ReservadosThe only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars...
On The Road, Jack Kerouac
Estranha manifestação de amor [oito]

Direitos Reservados
A impressão que Tania oferecia era a de uma mulher permanentemente em vias de se escapar. Fugir parecia ser a sua única constante. Várias pessoas confundiam esse ar com traição, eu incluído. Mas não era assim. A Tania possuía um íntimo sentido de lealdade. (...) A reconciliação com a Tania foi dura, encarniçada. Apesar de durante os quatro meses que nos mantivemos separados nos termos amado mais que nunca não deixámos de nos humilhar e de vexar. (...) Ela preferiu deixar-me a perder-me. Naquele momento pareceu-me sem sentido. Agora compreendo que não é assim. (...) Se casasse com ela de que falaríamos sessenta anos depois? De que nos lembraríamos? Dormiria nua ao meu lado, sem pudor? Faríamos amor beijando-nos com as nossas bocas desdentadas? Quem morreria primeiro?
O Búfalo da Noite, Guillermo Arriaga
domingo, 2 de Novembro de 2008
no meu mundo perfeito [dois]
só chovia quando eu estivesse em casa e as ruas, mal eu saísse, ficavam secas!
às 2h acabou-se!
O bairro alto agora fecha às 2h. Dizem que é por causa do barulho. E da confusão. E para as pessoas irem para casa mais cedo. Não sei se vai funcionar. Porque ontem, chegando ao bairro obscenamente cedo (tipo 23h), as ruas estavam semi-vazias e pude sentar-me confortavelmente e sem grandes apertos no sítio do costume, conversar tranquilamente e não me irritar com o mar de gente habitual. Quando saí, passava pouco da 1h (as semanas pesadas não perdoam) senti-me a lutar contra a corrente, nós a tentar sair e um mar de gente a tentar entrar. Centenas de pessoas a chegar àquela hora, quando os bares fechavam dali a pouco. Ainda pedinchei Incógnito. Desta vez não fomos, mas com o bairro a fechar às 2h é possível ir para outros sítios (que fecham às 4h ou às 5h, não conto com o Lux). Não me parece é que esta filosofia do começar cedo e acabar cedo pegue. Hábitos antigos são difíceis de quebrar!
Entretanto o meu amigo que é barman, fechando o sítio do costume às 2h ou às 4h, já agita quatro garrafas ao mesmo tempo.
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